Les Triplettes de Belleville: As Possibilidades do Impossível

Um conto sobre o constante conflito entre as limitações humanas e a opressão da sociedade. Narrado de forma leve e descontraída, através de uma sátira da sociedade consumista norte-americana e apresentando as desventuras de uma frágil, porém resiliente, senhora em busca de seu neto seqüestrado.



Les Triplettes de Belleville é um filme de 2004, produzido por quatro países (França, Bélgica, Canadá e Inglaterra), ganhador de muitos prêmios e indicado ao Oscar nas categorias de melhor animação e melhor música original. Dirigido e roteirizado por Sylvain Chomet, trata-se de uma narrativa que foge completamente ao padrão, um verdadeiro mergulho em um mundo dualista, excêntrico e absurdo, permeado por referências claras à realidade, em muitos momentos caricaturescos, numa espécie de festival maluco de charges sobre a sociedade dos anos 50/60.

A dualidade da sociedade representada no filme é contrastada por cores quentes versus cores frias, um mundo de agitação e glamour versus uma família humilde na luta contra a depressão, uma cidade elegante e limpa versus uma periferia pobre, suja e decadente.

Uma história que aborda temas intimistas com tamanha sensibilidade e ao mesmo tempo retrata uma sociedade opulenta, com prédios suntuosos, pessoas extravagantes com suas jóias e tecidos caros, multidões que ovacionam a elite seleta que atravessa o tapete vermelho, numa profusão de cores vivas, quentes e alegres. É neste contexto que somos apresentados a Belleville, através de uma pequena televisão em uma singela casa pertencente a uma família quebrada e desolada, cuja avó luta arduamente para remendar, enquanto o neto vive sua batalha em negação à existência, num estado de depressão palpável, já as cores neste cenário, muito sombrias e tristes, trazem todo o peso dessas emoções.

Uma narrativa com dois diálogos, sendo um deles logo após apresentar a avó e o neto sentados em frente à TV, quando a avó pergunta: “O filme acabou? Não quer contar para a avó? O filme acabou?”. O garoto não responde, vive imerso em uma tristeza pesada que lhe curva os ombros e abate o espírito. O filme ao qual a avó se refere é um musical protagonizado pelas trigêmeas de Belleville (Les Triplettes de Belleville). Em seguida, num intervalo, um pianista toca habilmente, enquanto a avó sempre preocupada com o garoto o observa atentamente em busca de um sinal de interesse e depois corre até um cômodo abandonado, tira a lona de cima do piano e apresenta ao garoto que demonstra total desinteresse, mas a busca da avó é incansável. Ela persiste em encontrar alguma faísca de motivação em seu neto quebrado, presenteando-o com um trem de brinquedo e um filhote de cachorro, até que descobre, ao folhear um jornal, um recorte que fazia parte de uma coleção em um caderno, guardada embaixo da cama do garoto.


Uma coleção de fotos de ciclistas e bicicletas, juntamente com uma foto na parede: um casal em uma bicicleta e um texto que faz alusão ao pai e a mãe. Revelando, neste momento, a origem do trauma do garoto, o esfacelamento da família e a necessidade de preencher um vazio com algo que lhe conecte a perda sofrida. O insight do momento leva a avó a comprar uma bicicleta para o neto, que chega da escola, se depara com a surpresa e pela primeira vez sorri com genuína alegria.

Enquanto o garoto se diverte em sua bicicleta nova pelo pequeno quintal da casa, o quadro abre e mostra a localização daquela casa: isolada, um ambiente rural, distante da Torre Eiffel. Em seguida, uma montagem rápida, que inclui as diferentes estações climáticas, ampliação da cidade e rede elétrica, a evolução tecnológica e, por fim, uma linha de trem em um viaduto que intercepta a casa da família, tudo isso sugerindo um salto na linha temporal de pelo menos 10 anos.


 Quando o cachorro se encontra obeso e velho, o neto, um atleta ciclista com sinais de calvície e a avó, no entanto, sem nenhuma alteração. Uma senhora extremamente resiliente, que abdica de sua vida e seus interesses em função de motivar insistentemente o neto psicologicamente abalado. Essa é a missão de vida desta personagem, que nunca se esgota, é capaz de realizar feitos inacreditáveis e, algumas vezes, absurdos e fantasiosos. Uma verdadeira personificação do poder de transformação do indivíduo, o constante processo de buscar algo a que se tornar visto que não existe essência predefinida, uma constatação da filosofia sartriana: “A Existência precede e governa a essência”.

Neste ponto da história, o protagonista, embora tenha encontrado sua fonte de motivação, continua abatido e deprimido, mas com foco, determinação e impulsionado pela força arrebatadora de sua avó, ele treina para o Circuito da França, com uma rotina metódica e exaustiva.


Durante a competição no Circuito da França, ocorre a primeira grande reviravolta da trama: o protagonista é seqüestrado juntamente com outros dois atletas, que são levados para um convés de navio e acorrentados. A avó que seguia o rapaz, sempre atenta e persistente, é vítima de uma emboscada quando seu automóvel é sabotado e ela perde de vista o rapaz. A Senhora inquebrável e incapaz de desistir, desafia todas as leis da física e consegue improvisar um novo pneu, com uma técnica hilária e que até MacGyver invejaria, e então segue pelo circuito, com o único intuito de encontrar o neto.
Auxiliada pelo inseparável e fiel cachorro, que usa de seu olfato aguçado, a avó consegue encontrar as pistas que a levam até o navio a tempo de vê-lo zarpar do porto. Neste ponto começa sua empreitada desesperada e desafiadora, enfrentando um oceano, em um pequeno barco a pedais, em meio a tempestades e calmaria até ancorar na costa da charmosa e suntuosa cidade, Belleville. Na chegada, uma óbvia e hilária referência à Estátua da Liberdade, onde temos uma mulher obesa segurando um hambúrguer em uma mão e no lugar da tocha, um sorvete.



Belleville agora é visto do ponto de vista da avó em sua perseguição do neto e dos seqüestradores. Uma cidade elegante, com habitantes extremamente obesos, todos eles, com exceção de um único mendigo que aparece em um determinado momento. Uma alusão clara à sociedade consumista norte-americana, reforçada quando um frame mostra um letreiro onde se lê: “HOLLYFOOD” (Trocadilho sagaz com a palavra Hollywood, em que Food significa comida). A constatação definitiva de que aquele ambiente fictício é uma sátira bem específica do universo cheio de contradições e dicotomias de Hollywood.
Dentro deste universo satírico, há a representação de um mafioso, responsável pelos seqüestros, que usa das habilidades físicas dos três atletas para criar um jogo de apostas. A avó, por sua vez, não consegue rastrear os capangas e acaba o dia embaixo de uma ponte com uma fogueira acesa, o cachorro ao seu lado e a roda de uma bicicleta com a qual gosta de reproduzir suas músicas. Na solidão do momento, sem dinheiro, comida ou perspectiva de encontrar o amado neto pelo qual dedicou boa parte de sua vida, a senhora começa a tocar a música das trigêmeas de Belleville e tem-se início mais uma reviravolta surreal e genial, que dá início ao terceiro ato do filme.



A partir daí, a história se torna altamente cômica, surreal, uma espécie de Busca Implacável onde Liam Neeson é substituído por uma senhorinha com problemas locomotores, devido a uma anomalia anatômica que a obriga a usar um sapato de sola mais alta do que o outro. Além, claro, de seu fiel companheiro Bruno, o cachorro e único personagem que tem seu nome revelado ao longo de um filme que usa unicamente das imagens para desenvolver sua brilhante narrativa e seus personagens com altíssima carga emocional, o que se constitui, ao mesmo tempo, de um mérito grandioso e um método ousado de criação.
No meio da elaborada busca, com direito a algumas técnicas de espionagem, a adorável senhora conta com a ajuda de personagens improváveis, que a acolhem em seu quarto de hotel na periferia suja, cheia de marginalidades e problemas sociais que se escondem sob a belíssima fachada de Belleville.



Ao fim de todas as desventuras, a saga do herói se completa, ou melhor, a saga da heroína! Com um desfecho engraçado, cheio de ironia e acidez que condizem tanto com essa obra magnífica, a senhora consegue recuperar o neto e sair de Belleville. E voltamos, então, ao cenário melancólico da pequena casinha nos arredores de Paris, onde temos o último diálogo do filme que repete o primeiro, em que ouvimos a voz da avó, embora sua imagem não esteja presente na cena, e o neto já idoso responde: “Acabou, vovó”.

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