Aquele tal Bloqueio Criativo

Um desabafo pessoal sobre o torturante momento em que se confronta um monstro a ser vencido: a folha em branco. A batalha desesperada contra a ansiedade galopante de uma mente pessimista, frenética, confusa e delirante, na tentativa de linearizar as ideias desestruturadas.


Pra começar e tirar o Elefante Branco da sala: não me considero escritora. Não tenho talento, não tenho dom, nem alma de poeta. Só tenho tempo e ímpeto. Nada de orgulho, pretensão ou ambição. Estou plenamente consciente de minhas limitações e, entre muitas, a habilidade de escrever algo grandioso ou extraordinário é uma delas.

Não recebi um chamado, não fui ungida, nada dessa presepada espiritualista. Até o momento não sei o que estou fazendo, muito menos o porquê estou a fazê-lo. Alguns dirão que é a necessidade de preencher um vazio, talvez seja. Mas quanto mais penso a respeito, mais certa estou de que é o contrário. É uma necessidade de esvaziar. Extrair essa angústia, que preenche e transborda. 

Tento me convencer que é um ócio produtivo: leio, estudo, assisto filmes, séries, documentários, penso sobre tudo isso e escrevo. Ou tento, pelo menos. Mas aquela maldita sensação do fracasso iminente persiste. Sempre penso, antes mesmo de terminar o primeiro parágrafo: “Vai ficar um lixo. Preciso ler vários autores, estudar várias correntes filosóficas. Caso contrário, isso vai ficar uma bosta!”. Ainda que eu escreva e reescreva inúmeras vezes... Sempre parece imperfeito, superficial e idiota. E aliado a toda essa autodesconfiança e insegurança tem o pavor do julgamento alheio. Esse é o pior de todos. O monstro a espreita no beco escuro, que paralisa e embaralha todas as suas faculdades mentais. E até mesmo aquelas ideias que pareciam geniais se perdem no meio de uma salada de referências artísticas, científicas e pessoais. Nada mais faz sentido. Porque continuar?

Pelo desafio. Pronto. Convenço-me de novo de que isso tudo tem um propósito. Aquela ladainha dos livros de auto-ajuda: é preciso enfrentar os seus medos para superá-los. Movida pelos clichês de psicólogo de boteco sigo na busca do autoconhecimento e evolução pessoal. Mas me deparo com a maldita folha em branco e a força de vontade se esvai, as ideias embaralham e ansiedade assume o controle da situação.

Continuo mesmo assim. Não mais pela superação, mas pelo medo da constatação do fracasso. Movida apenas pela ansiedade.  Afinal, escrever não é tão difícil assim. Umberto Eco já constatou o poder da internet, das redes sociais. O fenômeno sociológico que a internet promoveu ao dar voz a toda essa legião de imbecis é irreversível. Agora não faz diferença, eu posso me juntar a eles. Que mal poderia acontecer? 

Péssima pergunta. Na hora de antecipar o mal, eu sou especialista. O pessimismo está arraigado na minha pessoa há tanto tempo que, muitas vezes, parece parte da minha personalidade. E para acompanhar, o niilismo se estabeleceu com força arrebatadora. Uma combinação poderosa, que produz uma implosão do ser. Destruindo tudo. Quando só resta o Nada, não há mais alternativa, é preciso substituir os destroços por outra matéria, outra essência. É preciso se transformar, recomeçar, reconstruir e tentar se adaptar às condições que se estabelecem em volta. Mesmo sabendo que em breve virá nova implosão e será necessário novo esforço para recomeçar o processo.

E nesse ponto, as ideias já são um amálgama de fragmentos de uma mente completamente delirante. Um mosaico alucinado. Um LSD estragado. Não existe coesão. O ser humano não é coeso. A gramática é uma afronta a condição humana. Não sei por que estou escrevendo. Nitidamente não sou capaz de tal façanha. Um texto que começa como um Elefante Branco e termina como um LSD estragado não pode ser bom.
 
O Bloqueio não é um estado transitório, ele é uma condição psíquica de uma pessoa com grave transtorno de ansiedade. A página em branco aterroriza e paralisa. Assim como faz qualquer perspectiva de acontecimento futuro, por mais banal que ele seja.


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